"A leitura como aventura e paixão" é um texto fantástico de Moacyr Scliar que PIQUENIQUE DA LEITURA traz para demonstrar que a leitura deve ser ensinada a nossos filhos e alunos com amor, dedicação e paciência.
"Na leitura, a gente avança pelo método de tentativa
e erro, de aproximações sucessivas. Em resumo, proibir ou censurar, não.
Recomendar, debater, ensinar, sim. Vivemos num mundo cheio de imperfeições e
perigos, e o que podemos fazer com nossos filhos e alunos é ensiná-los a
navegar por esse mar turbulento, em navios cujas velas são as páginas da grande
literatura. Ler é aventura, ler é paixão."
A leitura
como aventura e paixão Carta na Escola 5 de novembro de 2010 às 16:36hO professor
nunca deve proibir um livro. Mesmo que a obra seja ruim ou inadequada, a missão
do educador é fazer o aluno entender os motivos disso. Por Moacyr Scliar O romance
de Ray Brad-bury, Fahrenheit 451, publicado em 1953, fala-nos de um futuro
em que opiniões pessoais e o pensamento crítico são considerados coisas
perigosas e no qual todos os livros são proibidos e queimados: o número
451 do título refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) na qual o papel
pega fogo. Trata-se, obviamente de ficção, mas houve momentos em que essa
ficção expressou a realidade. A censura acompanhou como um sombrio espectro boa
parte da história da humanidade. O próprio termo “censor”, que é latino, data
do século quinto antes de Cristo, quando o Império Romano delegou a
funcionários a tarefa de moldar o caráter das pessoas. Mas não só em Roma
acontecia isso; na Grécia clássica, em 399 a.C., o filósofo Sócrates foi
condenado à morte por difundir entre jovens ideias consideradas perigosas.
Desde então, não foram poucos os regimes totalitários que prenderam ou mataram
aqueles que ousavam contestá-los.A partir da invenção da imprensa, por Johannes
Gutenberg, no século XV, o livro impresso passou a ser um alvo preferencial
nesse processo. Já em 1559, a Igreja estabelecia o Index Librorum Prohibitorum,
a lista de livros que os fiéis não podiam ler, e que teve mais de 20 edições,
antes de ser definitivamente suprimida em 1966. As autoridades civis exerciam
poder semelhante; em 1563, o rei Carlos IX, da França, baixou decreto
estabelecendo que nenhuma obra podia ser impressa sem permissão do rei. Nos
séculos que se seguiram, e sob várias formas e pretextos, livros foram
proibidos e até queimados, como aconteceu na Alemanha nazista. Os motivos, ou
pretextos, eram de várias ordens: morais, políticos, militares. Nos Estados
Unidos, em vários lugares e por várias instituições, foram censurados livros
como Chapeuzinho Vermelho (numa das versões a menina oferece vinho para a sua
avó), Alice no País das Maravilhas (os animais falam com linguagem humana), a
coleção Harry Potter (supostamente promove bruxaria). Numa época, direções de
escolas no Rio Grande do Sul proibiram os livros de Erico Verissimo, porque
achavam ser imorais.No Brasil, tivemos um período de censura severa, quando do
regime autoritário (1964-1985). As razões apresentadas não raro beiravam o
ridículo; numa exposição de “material subversivo” apreendido em Porto Alegre,
havia um livro com a seguinte legenda: “Obra esquerdista em chinês”. Era uma
Bíblia em hebraico. Mais recentemente, e nas escolas, surgiram problemas com
livros que narravam cenas de sexo e de violência, às vezes selecionados por
técnicos da área educacional. Por outro lado, sabemos que a disseminação da
pornografia e da violência é cada vez mais frequente. E isso sem falar na
questão do politicamente correto, que procura evitar palavras ou expressões
potencialmente ofensivas a grupos étnicos ou religiosos, ou a opções
sexuais. Pergunta: o que devem fazer os pais e educadores diante dessa
situação?Creio que uma expressão consagrada pela saúde pública aqui se aplica
perfeitamente: é melhor prevenir do que remediar. E isso por uma simples razão:
é tão grande o volume de informações atualmente disseminadas, não só por
livros, mas também pela internet, por vídeos, pela própria tevê, que é
impossível evitar o acesso de crianças e jovens a esse material. O melhor é
prepará-los para que possam identificar os potenciais riscos que estão
ocorrendo. Mas há um aspecto adicional. Esses riscos não são como os do fumo ou
das drogas, substâncias sempre nocivas, e que, em qualquer dose, envenenam o
organismo. O material veiculado pelos meios de comunicação pode se transformar
numa fonte de aprendizado. É como vacinar uma pessoa: ela é inoculada com
germes inativos e seu organismo preparará anticorpos que vão defender essa
pessoa de doenças. Isso exige um estreitamento dos laços entre pais e
professores, de um lado, e os jovens de outro. No caso da tevê, por exemplo, é
muito bom que o pai ou a mãe sente ao lado da criança e converse com ela sobre
o que aparece na tela. Também é muito bom que os pais leiam para os filhos
quando esses ainda são pequenos. Isso, além de introduzir a criança ao mundo
dos livros, representará um vínculo emocional que persistirá por toda a vida. O
menino e a menina associarão o livro à imagem protetora do pai ou da mãe.Em
relação à escola, vale o mesmo raciocínio. Quando um jovem me pergunta que
livros deve ler, respondo: “Em primeiro lugar, aqueles que os professores
indicam; eles conhecem o assunto, eles têm condições de fazer boas
recomendações”. Mas nunca digo que o jovem não deve ler tal ou qual obra, tal
ou qual autor. Meu aprendizado como leitor passou por livros que depois
considerei tolos ou ruins. Mas isso foi útil para que eu pudesse aprender a
formar o meu juízo crítico. Na leitura, a gente avança pelo método de tentativa
e erro, de aproximações sucessivas.Em resumo, proibir ou censurar, não.
Recomendar, debater, ensinar, sim. Vivemos num mundo cheio de imperfeições e
perigos, e o que podemos fazer com nossos filhos e alunos é ensiná-los a
navegar por esse mar turbulento, em navios cujas velas são as páginas da grande
literatura. Ler é aventura, ler é paixão.
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